Agronegócio

Como criar uma plantação de cacau em São Tomé e Príncipe: guia prático para o investidor

EMEuclides MartinsCEO da MARSF Serviços · mais de 13 anos de experiência··5 min de leitura

Da plantação da muda às primeiras flores passam 2 a 2,5 anos, e a árvore produz em pleno durante cerca de 15 anos. São Tomé é um dos poucos lugares onde ainda cresce cacau aromático de variedades antigas e onde funciona um centro nacional de investigação, o CIAT, com viveiros próprios. Explicamos como obter terra, o que plantar, como cuidar e como levar as amêndoas à qualidade de exportação.

Os números deste artigo baseiam-se em dados do CIAT, o Centro de Investigação Agronómica e Tecnológica (2024).

Terra e solo

Como um estrangeiro obtém terra. Pela Lei de Terras (Lei 3/91), um estrangeiro sem projeto de investimento pode ter um único terreno até 2 ha. Uma plantação exige um projeto de investimento aprovado, que define a área. A lei prevê venda, aforamento, concessão, arrendamento e direito de superfície, mas na prática a terra agrícola do Estado é atribuída sobretudo em concessão. As alternativas são o arrendamento a um proprietário privado ou um contrato com uma cooperativa.

ParâmetroExigência
Acidez do solopH 6,0–7,0
Profundidade da camada fértilmais de 1 m
Texturaargilo-arenosa
Nutrientesfósforo, cálcio, magnésio, azoto
Pluviosidade2 000–2 500 mm por ano, bem distribuídos
Evitarterrenos encharcados

O CIAT dispõe de um mapa de aptidão para o cacau — confirme o terreno antes de assinar.

Variedades e mudas

GrupoExemplosCaracterísticas
Clones de variedades antigasAmelonado (tipo Criollo), Cantongo, DHS30, DHS26, IMC67, IMC76, PA150, ICS1, ICS8, SST120–123Bem adaptados, dão cacau aromático
Híbridos do CIATCIAT 1–5, 11, 12, 14 e outrosMaior produtividade, mas menos resistentes a pragas e doenças; amêndoa de menor qualidade

Escolher a variedade é escolher a estratégia: clones antigos para o segmento premium (fine flavour, origem única), híbridos para volume.

As mudas podem ser produzidas na própria plantação ou compradas nos viveiros do CIAT e da cooperativa CECAB, por cerca de 18 dobras cada. Crescem 3 a 6 meses em sacos de 15 cm de diâmetro e 35 cm de comprimento e escolhem-se de acordo com a zona agroecológica do terreno.

Plantação e maneio

Plantação. Planta-se no início da época das chuvas. Cova de 40×40×40 cm: os primeiros 20 cm de terra fértil ficam à parte e no fundo coloca-se casca de cacau com biofertilizante. As primeiras flores surgem ao fim de 2 a 2,5 anos; o fruto amadurece em 90–120 dias.

Compasso entre árvoresÁrvores por hectare
3 m (normal)1 111
2,5 m (intensivo)1 600

Fertilizantes. Usam-se orgânicos: estrume, estrume de aves, composto e casca de cacau. Os biofertilizantes custam cerca de 2 € por kg. É também a base para a certificação biológica.

Doenças e pragas.

  • Vassoura-de-bruxa e podridão-negra. Controlo com inspeção regular e calda bordalesa a 1–3%, cerca de 4 € por kg.
  • Ratos. Os venenos são proibidos; usam-se armadilhas e protetores plásticos nos troncos. Em São Tomé há bem menos ratos do que no Príncipe.
  • Excesso de humidade durante o vingamento dos frutos reduz a colheita, por isso o terreno sob as árvores é limpo regularmente.

Poda e renovação. São necessárias podas de formação, de manutenção anual e preventivas contínuas. A vida útil da árvore é de cerca de 15 anos, pelo que se renova até 20% das árvores por ano; as plantações antigas podem ser rejuvenescidas por enxertia.

Do fruto ao saco

As colheitas principais são em abril–junho e setembro–novembro. O aroma de chocolate nasce na fermentação, não na árvore — é no processamento que se decide o preço do seu cacau.

  1. Colheita. Os frutos maduros são cortados e abertos e retira-se a polpa com as amêndoas. Uma pick-up leva cerca de 1 t de polpa, um trator cerca de 2 t.
  2. Fermentação, 5–7 dias. Caixas de madeira sem cheiro, pelo menos duas divisórias, furos de 6–10 mm a cada 15 cm no fundo. Primeiro revolvimento às 48 horas, depois a cada 24 horas. Na época seca bastam 5 dias, na das chuvas 6–7.
  3. Secagem, 1–2 semanas. Secadores solares de madeira de 30×4 m cobertos com plástico. O objetivo é 7–8% de humidade. Um secador processa cerca de 1 t de cacau seco por semana, cerca de 26 t nas duas épocas. Dura 3 a 10 anos e constrói-se junto à plantação.
  4. Armazenagem. Em sacos de ráfia, em armazém seco. Segue-se a inspeção do CIAT e a exportação — veja o nosso guia de exportação.

Produtividade, pessoal, equipamento

CenárioAmêndoa seca, t/ha por ano
Média nacional (sobretudo plantações abandonadas)0,1–0,2
Plantação tradicional bem cuidada0,4–0,8
Maneio completo, 1 111 árvores/ha (cerca de 1 kg por árvore)cerca de 1,1
Híbridos do CIAT, segundo o centroaté 3

Pessoal. Um trabalhador cuida de 1,5 a 2,5 ha. Na colheita de árvores adultas são precisas até 3 pessoas por hectare.

Equipamento. O trabalho na plantação é manual: catana, gancho, tesoura de poda, serrote, pulverizador, roçadora, motosserra. Os veículos só são necessários na colheita e no transporte. As pick-ups vendem-se no representante oficial da Toyota na ilha; os tratores têm de ser importados — sem direitos, se o projeto estiver registado no Código de Investimento.

Benefícios

Uma plantação a partir de 50 000 € registada no Código de Investimento tem redução de 50% do IRC durante 7 anos e de 25% por mais 2 anos, importação de equipamento sem direitos e amortizações aceleradas em dobro. Nas zonas de desenvolvimento especial (Cantagalo, Lembá, Lobata, Caué, Príncipe) os benefícios são maiores. Mais no nosso guia de impostos.

Riscos

  • Arranque lento. A primeira colheita surge ao fim de 2 a 3 anos. É mais rápido assumir uma plantação antiga e rejuvenescê-la por enxertia.
  • Doenças. Sem calda bordalesa e poda no momento certo, perde-se parte da colheita.
  • Logística. A polpa tem de chegar à fermentação no dia da colheita — instale as caixas e os secadores junto ao terreno.
  • EUDR. Para vender na UE, registe desde o primeiro dia a geolocalização das parcelas e prove que a plantação não substituiu floresta.
  • Terra. Verifique os direitos e os limites do terreno antes de investir: as antigas roças foram divididas entre pequenos proprietários e famílias de antigos trabalhadores.
EM

Sobre o autor

Euclides Martins é CEO da MARSF Serviços, com mais de 13 anos de experiência em São Tomé e Príncipe. Foi especialista principal de comunicação da unidade nacional do Quadro Integrado Reforçado (QIR — Enhanced Integrated Framework, programa de Ajuda ao Comércio ligado à OMC) e responsável pela articulação com o Governo de São Tomé e Príncipe.

Vamos falar do seu projeto

A MARSF escolhe o terreno com o CIAT, trata da concessão e do projeto de investimento, encontra o agrónomo e o pessoal e ajuda a vender a primeira colheita.

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Este artigo tem carácter informativo e não constitui aconselhamento jurídico ou fiscal. Leis e taxas podem mudar — confirme as condições em vigor antes de decidir.

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